Nos caminhos da alteração.

 

A obra de arte é uma realidade em si, tão concreta quanto aquela que nos revela a natureza. A diferença reside em que na arte o caráter construído opõe-se ao que chamamos de a realidade cotidiana. São dois sistemas de linguagens diferentes: o da arte no qual o artista articula a relação entre forma e conteúdo, e o do mundo natural onde as coisas acontecem espontaneamente.

 

A representação da aparência do mundo é uma questão antiga na história da arte: o confronto entre arte como mimesis e arte como poiesis. O regime de visibilidade que rege o conceito de mímesis é aquele em que a obra é a imitação perfeita da realidade. Neste sentido, o grau de identificação entre o objeto artístico e o “motivo” se dá por procedimentos que buscam o maior estado possível de semelhança. Já a poiesis é entendida como uma intencionalidade, um projeto no qual o artista trabalha com maior ênfase a linguagem do sistema em que atua. Nela, ele preocupa-se mais com a exploração das possibilidades que a linguagem pode oferecer e em tornar visível o que ele vê, sabe ou sente. Cabe dizer que apesar da mimesis enfatizar a iconicidade, ela é sempre uma forma de poiesis, pois ao transpor seu “motivo” para a tela/papel ou outro suporte o artista estará sempre deformando/reduzindo a realidade no seu modo de expressá-la.

 

Os trabalhos que Maristela Cabello apresenta nesta exposição mostram vários aspectos desta problemática. Cianômetro é a obra que mais explicita a relação entre aquilo que é construído e o que é naturalmente encontrado. Na obra, vemos uma mão que segura uma fotografia emoldurada de um pedaço de céu “puro”. Este fragmento é mostrado contra um fundo que também é um céu, só que um céu  “modificado”. As tonalidades normais do céu são alteradas – coloridas de verde, rosa, cinza, ocre e preto. A estratégia que norteia este trabalho é aquela que faz conviver, numa só realidade: a criação artística,  duas situações ou dois pontos de vista. Na obra Sem deixar ver azul, a artista estabelece uma relação intertextual com o Cianômetro. Apropriando-se dos céus “modificados” ela os isola por meio de molduras douradas conferindo-lhes a aura reservada aos céus naturais. Esta alternância criada, entre uma e outra obra, realça a validade da poética e outorga identidade e autonomia ao trabalho.

 

Tanto no mundo da arte quanto no mundo natural a percepção é um atributo do sujeito observador e é nela que o sentido acontece. Na Validade do céu há uma distinção entre os céus azuis e os coloridos cuja função é marcar as diferentes temporalidades. Aqui o tempo é o valor implícito[1] na construção do trabalho. Observando as datas inscritas nas imagens nos damos conta de que nas imagens dos céus captados da natureza, a validade do olhar da percepção é da ordem do instante enquanto que na arte a validade é da ordem da permanência. A Validade do inverno é um quebra-cabeça de quarenta e cinco peças que não se encaixam perfeitamente, mas que nem por isto deixam de provocar um efeito de sentido de totalidade. Assim, a diversidade das imagens, neste trabalho, é unificada pela cromaticidade. As tonalidades de cinzas agregam as partes do quebra-cabeça constituindo a impressão que estamos diante de um único céu.  Neste trabalho, a data a validade é anterior a fabricação. Isto ocorre porque a percepção que é efêmera pode até estar vencida, mas isto não quer dizer que esteja perdida, visto que, na fabricação da imagem, ela é  reencontrada numa nova harmonia.

 

O jogo de inversões persiste entre os títulos de Porta-céu e Monócolo, e no trabalho Sem Título, constituído por duas fotos de um homem que é mostrado de frente e de costas. Consciente da passagem do tempo ele contempla o infinito. A série Morada é formada de três caixas. A primeira caixa abriga ordenadamente os negativos de toda uma vida familiar da artista, na segunda estão os positivos e seus duplos refletidos no espelho da tampa da caixa e na terceira  as ampliações das imagens. As fotografias ampliadas são as originais de um outro trabalho não presente na exposição - a série do Fio de cobre. Nas fotos as pessoas estão ligadas por fios de cobre que sendo um bom condutor estabelece as ligações de junção entre as pessoas. O que une o ser humano não são só os laços das paixões humanas como o amor, a amizade, a afinidade intelectual e a fraternidade, mas também a fé. Desta forma, o que Maristela Cabello realiza é um fazer poético - estas fotos já não pertencem ao âmbito do privado, mas do social, elas ganham uma dimensão que se expande para a humanidade na retratação dos enigmas do mundo – os afetos de todos nós.

 

 

Nancy Betts.

Março de 2004

Galeria Thomas Cohn

 

 

 

 

[1] Ver Betts, Nancy. “Os andamentos da arte”. In A subversão dos meios, curadoria Maria Alice Milliet, Nancy Betts. São Paulo, Itaú Cultural, 2003.