57 Belsize Park

A ideia do arquivo, de colecionar e de acumular que, obviamente pode ser entendida de perspectivas completamente distintas, também nos permite aproximações que potencializam alguns aspectos que elas têm em comum. É preciso ter em mente, ainda, que são noções bastante características da ‘vida moderna’ e potencializadas em sua dimensão de significados na contemporaneidade.

O interesse no cotidiano parece oferecer cada vez mais interesse ao olhar do artista e, principalmente do observador que se debruça sobre essa camada de realidade, vista pelo outro – o artista – que a destacou e marcou, por distintas razões, da sua condição de algo ordinário, que a trabalhou exatamente pela condição de não ter a aura do especial e espetacular que poderia justificar sua alçada à condição de arte.

Olhar para o conjunto de trabalhos da exposição 57 Belsize Park implica em aceitar o que Maristela Cabello nos propõe como uma possibilidade de reflexão acerca das compulsões e obsessões relacionadas a essas ideias e de como elas possibilitaram a exploração, em sua ampla perspectiva, da dimensão da memória.

A possível alegação de desconhecimento do contexto, ou das referências explícitas da vida e do cotidiano do “morador de Belsize Park”, como perspectiva para um distanciamento, ou mesmo de uma aproximação, por reconhecimento e identificação, aos trabalhos, perde sua força ao nos depararmos com a possibilidade de entrar na dimensão do apartamento pelo viés da memória e, mais ainda, por uma proposta de reelaboração de aspectos físicos, arquitetônicos e materiais, ainda que essencialmente pelas imagens e pela articulação de objetos originários daquele espaço no sentido de nos facilitar o acesso à essa condição sensível, à qual a imaginação nos conduz, de imediato, no contato com esse arranjo de arquivos.

O caráter do desaparecimento, a que se opõem as articulações da artista, nos permitiria estabelecer uma relação de natureza melancólica com cada uma das imagens que identificam os aspectos da ação inexorável do tempo sobre nossa condição humana e perene.

O que poderia ser entendido como a ação de um obcecado, algo que pretendemos inferir ao olhar as imagens do interior do apartamento do morador de Belsize foi o deflagrador de um processo de pesquisa que se articulou, ainda que de forma não prevista, às investigações da artista. Para ela a visão, o adentrar na moradia, o vasculhar as pilhas, as caixas, as gavetas, as montanhas de fragmentos de uma vida “estranha” e à qual ela não teria acesso a não ser por esses fragmentos e essas ruínas que se descortinam a cada passo dado dentro daquele espaço, se configuram em detonador de uma nova obsessão que a leva a enredar-se com o ambiente, com os objetos, com as memórias e, fundamentalmente, com os desejos instaurados nela, à partir da relação física com tudo aquilo que ela quer, mas reluta em admitir, precisa possuir, em toda a sua dimensão.

57 Belsize Park existe potencialmente em muitas dimensões, mas aqui pode ser percebido estratégia de ação que se manifesta em trabalhos como a ‘coluna infinita de livros’ acumulando memórias do ‘outro’, mas principalmente no Herbário de plantas imaginárias, produzidas a partir da coleta de ervas daninhas, assim chamadas por seu caráter espontâneo, em meio às estruturas da cidade. Delicadamente perigosas ao nos seduzirem pela aparente fragilidade de sua condição de plantas e flores, pelo travestismo de seu cientificismo, pela pretensa pedagogia de sua aparência, cada fragmento dessa coleção de plantas imaginárias evidencia o embate da artista com os efeitos da memória.

O interesse, ou a necessidade de borrar as fronteiras do que é da ordem do ordinário para aquela da instância da arte se apresentaria como uma das possibilidades de articulação arte - vida, ou melhor, na busca pela indistinção dessa separação. Deslocar-se pela cidade, coletar, arquivar, processar, montar, estruturar e construir cada uma das imagens aponta para o sentido do desejo, de produção e sobrevivência, por contraposição ao da destruição, desaparecimento e apagamento.

Marcos Moraes

Maio de 2017

57 Belsize Park